Dois pontos para quem veio ler alguma coisa.
May 25th, 2008- Tempo para outras vírgulas e novidades.
- Espaços maiores do que dois dedos antes do travessão.
Já volto.
Luciana Elaiuy
- Tempo para outras vírgulas e novidades.
- Espaços maiores do que dois dedos antes do travessão.
Já volto.
Luciana Elaiuy
Não era nada daquilo. O não dito quis dizer com pressa demais e de tudo intrometido acabou muito cedo com a minha paz. Até que ponto devemos querer? Até que ponto a história merece outra linha pra ler? Entende agora todos os meus sentidos? O não dito apenas não tinha nada para dizer! Não era nada daquilo. A menina, o menino, e o seu beijo apesar do sino não suou a palma da minha mão. Não lembrou do meu violão, não apressou os pedais da minha bicicleta. Só disse em silêncio aquele dito não, mas que também não era solidão. Ainda me sinto completa.
Luciana Elaiuy
Ó de ti, suprema força de todos os amores
Tua alva carne faz cegar os desavisados olhos
Teu sumo ácido faz animar os humores
Dos que querem a força de teu sabor e molho
És temida também por homens outros
Que nada sabem de teus segredos mil
Fechada em manto ora róseo ora roxo
Derrubas a moral até do mais forte e viril
Se dourada já não és mais hostil
Que o amor sem sal, o dia sem açúcar.
A vida sem ti seria pobre e vil
Ainda que para amar-te isso custa
Ceder aos encantos de teu doce-picante
Dentro da boca e de meu restante.
Daqui até o fim é uma caminhada e tanto. Já parou pra pensar nisso? Já se foram vinte e poucos, devo ter mais alguns deles, depois só o céu pode falar por mim. E o depois deve ser por aí. Nada de palavras. Só a fala mesmo. Nada de combinações, só as sensações mesmo. Mas isso é outro papo, e é um papo para o Céu, não para nós aqui embaixo, porque aqui é uma caminhada e tanto.
O que eu queria dizer, na verdade, é que eu desmarquei o bar e os beijos no cinema pra pedir pra você me amar muito e sempre e toda vez que eu não te amar. Não vou pedir por favor. Não é egoísmo, é troca. Se você der o primeiro passo eu vou logo atrás. O que você acha? Eu te dou um beijo, você me abraça. Eu te pego, você me leva. A gente vai junto no corpo, na alma, no espírito. Que tal? Tem outra idéia? Ou vai ficar me olhando com essa cara de “o que será de nós?”
Luciana Elaiuy
Seis gravatas ao redor da mesa. Chuva fina, chata, longa. Terça-feira. O bar era ruim, atendimento ruim, eu não gosto de esperar, e a água que me trouxeram não era com gás. Mas lá estava ela. Mulher padrão, aquela. Para aquele bairro, para aquela hora, que me valeu um texto desconfortável enquanto eu aguardava a demora. A moça estava lá, era a única na mesa dos seis, naquela fase em que todos são treinees, e ralam muito para ganhar três. Ela ria, posava, só eu via a cena forçada? Seis homens, nenhum dela, na certa que na infância ela não teve tanta passarela. Será que ela não entendia que era só um bar, uma noite molhada sem luar? Será que ela precisava mesmo daquela cena pra simplesmente estar lá? Dos seis, foram quatro. Dos dois, um ficou. Ela não desistiria, não abandonaria seu posto naquele quase altar. Vai ver era por isso que ela, viciada nela, namoradeira dela, encantada com toda ela, fumava aquele cigarro tão devagar.
Luciana Elaiuy
Vez ou outra me pula essa janela na tela, que de nada é virtual, de nada. A janela é um alívio. Tipo aquelas janelas que abrimos quando chegamos na praia, no sítio, em lugares novos. Pra mim, ela sempre terá cara de chegada, um lugar sem geografias, mas um lugar comum. Feito para poucos, os melhores são sempre assim.
Tem dias que essa janela se abre sozinha, tem outros que eu vou lá e arrombo os cadeados, arrebento meus horários, meus trabalhos, os fuso-horários e escrevo na fachada a palavra redentora: “oi?”. Do outro lado me respondem palavras de voz conhecida, de anos conversadas, de choros por nada, de choros porrada, de choros de rir e de planos, planos, planos de ir. E essa voz tem sempre a medida exata, tem a hora da esperar e a hora falar, um tempo que só algumas pessoas sabem cultivar. E as palavras me falam de orgulho, admiração, contam sonhos e outras coisas que só eu entendo na hora, ou não. Eu sei que faz bem. Sei também que agora, distância não tem nada a ver com demora, porque “é para sempre”, eu falei para ela. De um jeito ou de outro nós estaremos por aí, janela com janela.
Luciana Elaiuy
(para uma boa amiga que está mais perto do que longe).
Não negocio mais. Apesar das dores estarem incrivelmente bem vestidas, lindas e motivadas a serem meus versos, não negocio mais. Dia desses vi que atrás do meu calcanhar eu tinha mil abismos prontos para falhar e me puxar barranco abaixo. Pensei, pensei e gritei de dentro “abaixo as falsidades! Vou barrancar bonito pela cidade! Vou desamarrada desses dias, vou até levar meu coração junto, vou do jeito que eu estou que talvez tenha sentido ir”.
O tombo não me rendeu versos, o tombo não me fez elogios pela coragem, o tombo não saciou de tudo a minha sede, o tombo foi o primeiro mas não foi o último. O tombo me olhou nos olhos e eu vi que ele não era tombo. Era uma farsa, porque estava longo aquele tombo, porque o frio na minha barriga já era calor, era quase uma paz. Olhei pra cima e o céu ainda estava perto demais. A essas horas era para eu estar espatifada, rapaz! O tombo mentiu, demorou-se em mim numa queda longa. Prestei atenção e tudo aquilo tinha cara de milagre. A imaginação não sustentaria um coração pesado como o meu, não criaria naquelas circunstâncias um sentimento tão arrebatador assim. A queda estava boa demais para mim. Ainda estou alta como vinho nenhum foi capaz e agora eu grito aos mil ventos que me querem derrubar, que ninguém me engana mais. Não era tombo, era vôo, rapaz!
Luciana Elaiuy
Todos os dias acorda no pescoço.
Às seis da manhã:
Lavar o rosto, acalmar no corpo
o calor da febre terçã.
O corpo rijo como um cavalo,
marcas de aço no seu rosto roto.
Negro amargo, sem dentes
na boca de comer arroz e osso.
De morrer cada dia um pouco.
De encher seu bucho morto.
De morrer negro no lodo
Igual a cor da sua pele,
remexe dentro do poço,
No estreito poço o seu corpo cavalar.
(mais dela: organoon.blogspot.com)
Ele me perguntou o que havia acontecido. Eu disse que só responderia quando quisesse. E agora eu quero dizer: dia mal, dia bom, nada disso além e tem vezes que eu vou até bem quando lembro que tudo que vai, vem. Estou indo então. Indo de mim, indo pra não ficar aqui e nada de novo, sempre assim. Estou indo, me esticando, podem falar, os passos são meus e sem mim eles não vão andar. Ainda que doa, estou indo de mim. Não me escondo mais nada, em quartos ou salas eu sou mesmo essa praça na rua da igreja, exposta ao prometido, perigando na certeza, e tem dias que até consigo, de tanto absurdo, fechar os olhos e enxergar o que acredito. Ele me perguntou o que havia acontecido, estou indo pra falar tudo. Contar como construí muros e como dói destruí-los, desnutrí-los. Dia mal, dia bom, um dia ele volta pra ver se ficou bom, se meu projeto ainda está inteiro. Um dia ele volta, porque hoje já veio.
Luciana Elaiuy
Se eu escrevesse mais um desses textos “te amo, te amo, te amo”, acho que de nada seria amor. Seria um lembrete, e eu odeio lembretes, por favor! Por isso, agora escrevo outras coisas, queiram ou não queiram, não to aqui pra explicar. Se eu escrevesse de dentro, daí sim encontraria lugar. E sabe meu bem, só não desfiz o acampamento porque ainda me interessa procurar pelo lugar em que mais penso. Onde a fala não seja um lembrete, seja uma certeza sem repetições. Sim, uma certeza de tanta surpresa, vinda sem especiais ocasiões. Daí sim, vou te amar direitinho. Vou encontrar um lugar que se explicará sem bilhetinhos. Tudo isso há de ser um lugar. Tudo isso, há de me encontrar.
Luciana Elaiuy